Voando no meio da tempestade da Crise Aérea
A Crise Aérea (que neste exato instante está em um armistício, mas não acabou) já bagunçou os planos de muita gente, e eu não tenho tanta sorte (sorte alguma?) a ponto de passar imune.
Desde que o estado de sítio foi oficialmente anunciado (quando do acidente com o Legacy e o vôo 1907 da Gol em que tentaram fazer os controladores de tráfego de bodes expiatórios) pouco mais de um ano atrás eu já fui pego no turbilhão 5 vezes. A maioria foi de pequenos atrasos (até 4h), mas em dois especificamente foi preciso um pouco mais de paciência.
O primeiro foi na Terça-Feira Negra, Natal de 2006. Meu vôo, no dia 22 de Dezembro fazia uma conexão em Confins/MG. Chegando lá já sabíamos que a situação estava caótica. Pessoas dormindo em qualquer espaço de chão mais confortável, alguns tumultos aqui e ali, o cenário que dos jornais, só que em 360º. Não costumo deixar que pequenas coisas me tirem do sério, não importa quão grandes elas sejam. Após circular durante duas horas, sem perspectiva de embarque, arrumei um pedaço de chão eu mesmo e, com a mochila como travesseiro, dormi. Cheguei em casa com 12h de atraso.
A segunda vez foi em julho desse ano, começando em Vira-Copos, Campinas/SP. O pátio das aeronaves nunca esteve tão cheio, mas ainda assim não pudemos embarcar. Motivo: todos os tripulantes estavam com 12h de jornada e não poderiam entrar em outro vôo enquanto não descansassem.
Dessa vez o caos foi maior, houveram pessoas gritando com os funcionários e à beira de agressões físicas. A TAM resolveu alocar algumas pessoas para hotéis nas imediações, mas logo depois acenou que uma solução se daria ainda na mesma noite. Enquanto isso, nos pagaria uma refeição.
Neste momento percebi que algumas pessoas estavam pegando chopp ao invés do habitual refri ou suco de qualquer coisa. Troquei minha coca por uma loira e fui ao encontro desse povo. Ali estavam pessoas que, em suas cabeças, disserem "não vou me estressar hoje". Desenvolveu-se então um papo bastante animado, piadas, conversas de mesa de bar entre completos estranhos reféns de uma situação que não poderia ser chamada de comum.
Até o momento do embarque, 3h depois éramos uma mesa gigantesca de gente fazendo revezamento na compra dos chopps. Sim, por que até o pessoal que estava ameaçando de morte o funcionário da companhia aérea se juntou a nós.
No final das contas, chegando em BSB, nos despedimos. Eles já sabiam que Brasília não era meu destino final, apenas uma conexão que já tinha virado história, e fizeram um convite tragicômico: se eu ainda estivesse em BSB no final daquele dia, que ligasse para jantarmos.
No final da história a TAM nos colocou em hotéis e eu embarcaria para meu destino final até as 11h da manhã, chegando em Recife com 16h de atraso.
Marcadores: crise aérea, histórias



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