Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Voando no meio da tempestade da Crise Aérea

A Crise Aérea (que neste exato instante está em um armistício, mas não acabou) já bagunçou os planos de muita gente, e eu não tenho tanta sorte (sorte alguma?) a ponto de passar imune.

Desde que o estado de sítio foi oficialmente anunciado (quando do acidente com o Legacy e o vôo 1907 da Gol em que tentaram fazer os controladores de tráfego de bodes expiatórios) pouco mais de um ano atrás eu já fui pego no turbilhão 5 vezes. A maioria foi de pequenos atrasos (até 4h), mas em dois especificamente foi preciso um pouco mais de paciência.

O primeiro foi na Terça-Feira Negra, Natal de 2006. Meu vôo, no dia 22 de Dezembro fazia uma conexão em Confins/MG. Chegando lá já sabíamos que a situação estava caótica. Pessoas dormindo em qualquer espaço de chão mais confortável, alguns tumultos aqui e ali, o cenário que dos jornais, só que em 360º. Não costumo deixar que pequenas coisas me tirem do sério, não importa quão grandes elas sejam. Após circular durante duas horas, sem perspectiva de embarque, arrumei um pedaço de chão eu mesmo e, com a mochila como travesseiro, dormi. Cheguei em casa com 12h de atraso.

A segunda vez foi em julho desse ano, começando em Vira-Copos, Campinas/SP. O pátio das aeronaves nunca esteve tão cheio, mas ainda assim não pudemos embarcar. Motivo: todos os tripulantes estavam com 12h de jornada e não poderiam entrar em outro vôo enquanto não descansassem.

Dessa vez o caos foi maior, houveram pessoas gritando com os funcionários e à beira de agressões físicas. A TAM resolveu alocar algumas pessoas para hotéis nas imediações, mas logo depois acenou que uma solução se daria ainda na mesma noite. Enquanto isso, nos pagaria uma refeição.

Neste momento percebi que algumas pessoas estavam pegando chopp ao invés do habitual refri ou suco de qualquer coisa. Troquei minha coca por uma loira e fui ao encontro desse povo. Ali estavam pessoas que, em suas cabeças, disserem "não vou me estressar hoje". Desenvolveu-se então um papo bastante animado, piadas, conversas de mesa de bar entre completos estranhos reféns de uma situação que não poderia ser chamada de comum.

Até o momento do embarque, 3h depois éramos uma mesa gigantesca de gente fazendo revezamento na compra dos chopps. Sim, por que até o pessoal que estava ameaçando de morte o funcionário da companhia aérea se juntou a nós.

No final das contas, chegando em BSB, nos despedimos. Eles já sabiam que Brasília não era meu destino final, apenas uma conexão que já tinha virado história, e fizeram um convite tragicômico: se eu ainda estivesse em BSB no final daquele dia, que ligasse para jantarmos.

No final da história a TAM nos colocou em hotéis e eu embarcaria para meu destino final até as 11h da manhã, chegando em Recife com 16h de atraso.

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Medo de voar? Eu tenho medo de dirigir.

O medo de voar é algo interessante. Algo que acho que se só equipara à vontade de voar. Mesmo em tempos como esses, onde você não tem certeza se chega em casa a tempo da ceia do Natal de 2008 e ainda vê nos jornais dois aviões caindo em território nacional em menos de um ano ainda não acho sensato o medo que algumas pessoas têm de aviões.

É bom deixar claro: sou uma pessoa de números.

Em 2006 mais de 60.000 pessoas morreram com os pés no chão. Isso é equivalente a quase um avião caindo por dia. Essa última comparação deixa bem claro a máxima de que "voar é a forma mais segura de se viajar".

O "problema" de aviões é que o índice de sobrevivência por acidentes é extremamente baixo, enquanto mesmo a 120km/h algumas pessoas ainda vivem para contar como passaram no farol vermelho daquele cruzamento movimentado.

Talvez o que muitos não saibam é que o índice de sobrevivência por incidentes de avião são extremamente altos: acredite quando eu digo que um avião não cai fácil. Despressurização da cabine estão entre os incidentes mais comuns e eles nem são tão comuns como ter um pneu estourado numa rodovia.

Quem tem medo de avião e viaja próximo à janela gela na espinha quando vê a asa "batendo" algumas dezenas de milímetros, mas não sabem que em alguns modelos elas são feitas para dobrarem até oito metros antes de se partirem.

Ou quando pegam uma turbulência, e não param para comparar com uns estrada esburacada.

Já cansei de pegar turbulências, até daquelas que abrem o bagageiro, e atualmente uso o balanço mais para dormir.

Em outro evento, estive num vôo que teve que arremeter antes do touchdown. Minha primeira experiência, é verdade, mas já sabia que aquele é um procedimento normal. Achei graça da senhora à minha frente rezando em voz alta e da moça à minha esquerda, já em posição de impacto.

É claro que, nada o que eu disser aqui vai diminuir ou mesmo acabar com o medo de voar de ninguém, afinal, "contra argumentos não há fatos", mas espero que, ao menos, quando estiver em um vôo turbulento as pessoas gritem menos e eu possa continuar dormindo.

P.S.: Quase ninguém sabe qual é a potência máxima de uma turbina. Se você nunca esteve em uma arremetida, não imagine que o comandante usa potência máxima na decolagem. Existe uma diferença sonora absurda entre uma turbina em funcionamento normal e o som de CD em raio de pneu de bicicleta que é a potência máxima usada quando o avião arremete. Nesse dia eu lembro que pensei "Meu, essa bagaça vai explodir..."

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Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

Cancelamento de vôo

Só pra constar, era para eu ter embarcado hoje para Floripa. Faltando 1h para o embarque, o cliente me liga para avisar que amanhã os funcionários estarão em greve e a reunião não aconteceria.

Cancelei a viagem e fiquei por aqui mesmo, em São Paulo.

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A diferença na prática entre 05:00 e 17:00

Conforme eu disse no post anterior, 05 é na manhã, 17 é de tarde, 05PM é de tarde e 05AM é de manhã. Agora o que acontece quando você mistura as coisas?

Se você é quem compra as passagens para outro infeliz pegar o vôo, nada.

Mas se você é o infeliz em questão, acalme-se e leia a história abaixo. Talvez você possa tirar boas lições dela.

Eu trabalhava em uma terceirizada da distribuidora de energia local e fui enviado para dar manutenção em um sistema de comunicação do outro lado do estado. Só havia dois vôos, um de ida, um de volta e o trabalho deveria durar um dia. A agenda ficou assim:

  1. Chegada às 04h;
  2. Partida às 05h;

Já deu pra entender o problema, não? "Você embarca e chega lá às 04h, trabalha e volta no final da tarde, às 05h", foi o que me disseram. Meu erro: não chequei as passagens.

Doze horas depois eu chego no aeroporto, para descobrir que meu vôo tinha ido embora dez horas atrás. Após algumas negociações com a VARIG, remarquei o vôo para... as 05h.

Sem o mínimo saco de voltar para a cidade e fazer outro check in no hotel de novo, resolvo passar a noite no aeroporto. Aí vem a dica: como gastar 12h num aeroporto de interior que tem menos de 50m de extensão de saguão?

As primeiras 3h foram realmente difíceis. Naquela época ainda não estava popularizado o GPRS, WiFi era um sonho distante e eu não tinha jogos no notebook. Passei o tempo lendo um livro, que tive a felicidade de levar. Algum tempo depois havia outro vôo (para meu mesmo destino, e outra companhia aérea) e o aeroporto ficou cheio (umas 12 pessoas).

As poucas lojas abriram e eu fui num café comer algo e tomar um refrigerante. De última hora me veio uma idéia ótima e a coloquei em execução: comprei uma cerveja.

E outra. E outra. E mais duas. E mais duas. E quando o café estava para fechar de novo, mais três, só pra garantir.

Enchi a cara. Depois disso foi fácil dormir até as 03h, quando começaram a chegar mais pessoas para meu vôo. Embarquei, voltei e fim de história.

A moral é velha, mas válida: nunca confie na inteligência de seus aliados, nem tão pouco na burrice dos seus inimigos.

Cheque o cartão de embarque.

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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

0600 AM, GMT-3

Uma coisa que costuma dar alguma dor de cabeça para quem não é acostumado a aeroportos é a questão dos horários dos vôos. Fuso horário, horário de verão, formato de 12 ou 24 horas, etc.

De fato, existem definições bem precisas sobre o comportamento das horas e se todos seguissem isso os problemas seriam bem menores, menos vôos atrasariam e menos pessoas dariam no show.

Vamos às mesmas:

  1. O Brasil utiliza o formato de 24 horas. Isso significa que, qualquer relógio digital no país que marque 06:00 se refere às seis da manhã. Não confunda 05:00 com 17:00, sob pena de passar 12 horas num aeroporto (acreditem, eu sei do que estou falando);
  2. Em viagens no exterior, observe os indicadores AM/PM. Como lá o formato é de 12 horas é necessário haver uma distinção entre o que é manhã e o que é tarde. 02:00 AM são duas da manhã, 02:00 PM são duas da tarde. Se não houver indicador AM/PM, o formato em questão é 24 horas e deve ser tratado como tal;
  3. O dia acaba exatamente às 23:59:59. Outro dia começa exatamente às 00:00:00. Quando seu vôo estiver marcado para o dia 12/10/2009 - 00:35 evite o incoveniente de aparecer no aeroporto 24 horas depois dele já ter decolado. Não durma no dia 11;
  4. A hora impressa em seu cartão de embarque é sempre a hora local. "Mas hora local de onde?" De onde o cartão estiver se referindo. Exemplo: Partida de Rio Branco às 13:00, chegada a Brasília às 16:00 significa que o avião decolará às 13:00 no horário de Rio Branco e pousará às 16:00 no horário de Brasilia. Sabemos que existe uma mudança do fuso nesse caso, de GMT-5 para GMT-3 então uma viagem que aparentemente levou três horas na verdade durou uma (desconsidere o modelo do avião).

No final das contas é tudo uma questão de bom senso.


Adenum: GMT (Greenwitch Meridian Time - Hora do Meridiano de Greenwich) é a "hora zero" do mundo. O Brasil possui 4 fusos horários, todos eles com atraso em relação ao GMT:

  • GMT-2 - Fernando de Noronha;
  • GMT-3 - Brasília, hora oficial do Brasil;
  • GMT-4 - Belém do Pará;
  • GMT-5 - Rio Branco, no Acre.

Se ainda tiver dúvidas, consulte a professora de Geografia do ensino médio.

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Now boarding...

E aí você está numa entrevista de emprego, e o entrevistador pergunta:

- Disponibilidade para viagens?
- Total.

Parabéns, você acaba de vender sua vida social.

Apenas em um emprego que gire em torno de viagens é possível acumular milhas de uma forma que realmente valha à pena. Eu estou excluindo da equação os bem afortunados que podem se dar ao direito de passar um fim de semana em Paris, claro. Mas não é só mar-de-rosas: viagens de trabalho acabam sendo frequentes (mesmo porque não são muitos os que se predipõem a isso) e é necessário gostar muito de viajar. MUITO.

Ainda assim, haverão as ocasiões em que tudo o que você queria era dormir numa cama conhecida, ou mesmo numa cama em que você tem recordações de ser conhecida. É preciso que você queira conhecer o modo de vida de pessoas em outros estados e países, ver a vida noturna, fazer coisas comuns que as pessoas de outras culturas fazem. Não é somente visitar pontos turísticos. Na verdade não é nada sobre visitar pontos turísticos, é querer viver como eles, mesmo que somente por três dias.

É querer ir à padaria para ver o que é igual e o que é diferente.

Tem um ditado antigo que diz que "O turista vai a muitos lugares, mas sempre volta para casa. O viajante está em casa onde quer que ele esteja." Tem seu lado de verdade e não é tão bonito como parece, mas basicamente é isso. Turistas, não entrem nessa. Isso e território de Viajantes.

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Objetivos

Mesmo nos dias de hoje, viajar ainda não é algo que a maioria das pessoas gostem de fazer. Que dirá fazer, efetivamente. E em especial, de avião.

Tenho um histórico grande com esses tipos de experiência. De passar 12 horas num aeroporto anos-luz antes de qualquer um ouvir falar de crise aérea até algumas boas arremetidas.

Depois da última crise, ouvindo minhas narrativas, um amigo me sugeriu que eu escrevesse um blog sobre isso, de forma que as pessoas pudessem aproveitar um pouco da minha experiência e até mesmo se divertir com as desventuras mais esdrúxulas pelas quais já passei.

"É uma idéia interessante", pensei.

Já tenho um blog (dois, na verdade, sobre outros assuntos) e mais um acaba não sendo grande coisa.

Então, caros leitores, retornem seus assentos à posição vertical, certifiquem-se que as mesinhas estejam fechadas e travadas e os cintos de segurança afivelados, pois vamos decolar.


ACK? SYN!

Todo blog começa com uma postagem de teste. Este não seria diferente.

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